17 de outubro de 2006

Cyberespaço redimensiona a relação ensino-aprendizagem

Jogos eletrônicos contribuem não só para a aprendizagem como também para que os jovens aprendam a aprender. Leitura bíblica em plataforma multimídia como estimuladora da relativização de visões ortodoxas e fechadas. Chats da Internet como instrumento para o uso eficaz da linguagem, estimulando o gosto pela aprendizagem. Estes e outros trabalhos sobre potenciais aplicações das tecnologias da informação e comunicação às atividades educacionais serão discutidos no I Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação.

O evento acontece nos dias 26 e 27 de outubro e é promovido pelo Núcleo de Estudos do Hipertexto e Tecnologia Educacional (NEHTE) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Estarão presentes pesquisadores de diversas regiões do Brasil, o que marca o desenrolar do I Encontro Nacional sobre Hipertexto realizado em 2005 também na UFPE. O Simpósio discute ainda a inclusão de deficientes visuais no mercado globalizado, por meio das tecnologias da informação.

PRECONCEITOS - A estrutura cognitiva dos leitores da bíblia passa por alterações quando o livro sagrado é incorporado ao ambiente virtual? Este questionamento conduz a exposição de idéias dos pesquisadores da UFPE, José Carlos Leandro e Antonio Carlos Xavier. Eles debatem como a interatividade possibilitada pela leitura hipertextual da Bíblia no suporte digital contribuirá para uma pluralidade de leituras dos Textos Sagrados, relativizando a ortodoxia da hermenêutica dos exegetas (intérpretes das escrituras) e atacando assim o preconceito alimentado por dogmatismos.

No evento, ocorrerá o enfrentamento de preconceitos como o de que crianças e adolescentes perdem tempo de estudar quando estão jogando no computador. Desafios em reinos virtuais de fantasia e aventura possibilitam aos jovens construir seu próprio roteiro de aprendizagem, combinando conhecimentos de história, linguagem e outras disciplinas. Esta idéia será discutida pelos pesquisadores Filomena Moita (Universidade Estadual da Paraíba), Durval Nogueira (Universidade do Estado da Bahia) e Gustavo Gadelha (SENAI-BA).

Serão discutidos, durante o Simpósio, os choques e casamentos que podem acontecer entre as modalidades tradicionais de produção cultural e as plataformas virtuais multimidiáticas. Um dos temas tratados, nesta esfera, diz respeito às implicações envolvidas na transição de elementos da cultura popular, dentre os quais os folhetos de cordel, para o cyberespaço.

O professor José Alexandre Ferreira Maia (UFPE) traça o perfil que o romance assume quando é estruturado, de saída, como um hipertexto. Ele investiga como o aparentemente fragmentário e desconexo é na verdade um enredo tecido por elementos hipertextuais.

LETRAMENTO - Valéria Maria Cavalcanti Tavares (CMP-CE) abordará como recursos da Internet favorecem a valorização do trabalho em grupo e do desempenho oral no ensino de línguas. O pesquisador Júlio César Araújo, da Universidade Federal do Ceará (UFCE), segue um caminho semelhante, ao propor um olhar sobre os chats da Internet como ambientes de inclusão do aluno na construção do conhecimento.

A professora da UFPE, Nelly Carvalho, discutirá como a volatilidade do ambiente virtual trabalha minimizando o peso do erro gramatical. Ela também analisará o alcance destas mudanças tecnológicas na publicidade.

A necessidade de redimensionar a relação entre professor e aluno, a partir do avanço das tecnologias da informação no ensino-aprendizagem será discutida por Sérgio Abranches (UFPE). Segundo ele, a formação de professores começa a ser criticada na sua forma clássica que inclui a presença física de formador e formando em um mesmo espaço, e também a orientação diretiva das atividades exclusivamente por parte do professor-formador.

Paulo Gileno Cyneiros (UFPE) analisará exemplos concretos desta mudança na relação entre professor e alunos, no contexto da escola brasileira, tanto pública como particular, exemplificando-as com situações positivas e negativas de uso de ferramentas de hipertexto na atividade de ensinar e aprender.

Desmistificar a idéia de que o Linux é um bicho-de-sete-cabeças é o objetivo de André Alexandre Padilha Leitão (UFPE). Ele apresentará programas oferecidos por este sistema operacional e que auxiliam o desenvolvimento do letramento digital dos alunos, bem como a personalização das aulas pelos professores ou de projetos a serem desenvolvidos na escola.

.................................................................................................
Fonte: http://www.ufpe.br/new/visualizar.php?id=4539

15 de outubro de 2006

Revolução digital e novo perfil do professor

Diário de Pernambuco - Edição de domingo, 15 de outubro de 2006

Antônio Carlos Xavier
PROFESSOR DA UFPE

Carmi Ferraz Santos
PROFESSORA DA UFRPE

Sem dúvida o novo século trouxe muitas mudanças nos mais diversos setores da sociedade, uma delas já bem amadurecida na última década do século passado. Ttrata-se da revolução digital. Ela afeta a todos e, por isso, também os educadores. As tecnologias digitais de comunicação e informação, antes de serem concorrentes ou substitutas dos professores como apregoam alguns, são suas mais novas e eficientes aliadas. Seu potencial pedagógico é incomparavelmente maior ao quadro, saliva e giz tão comuns nas escolas brasileiras. Muitos professores ainda vêem de soslaio os benefícios das tecnologias aplicadas à educação que têm sido alardeados por alguns tecnófilos. Entretanto, até os mais céticos tecnófobos não são capazes de negar a "invasão" dessas máquinas nos ambientes escolares.

A Internet é uma realidade incontestável. Mas o que fazer diante dessa nova realidade? Ignorá-la como se nada estivesse acontecendo escondendo a cabeça no buraco como faz a avestruz? Esperar que a "onda tecnológica" passe como se fosse "só um modismo"? Ou admitir sua chegada, reconhecer a necessidade de conhecê-la, identificar suas características a fim de dominá-la para utilizá-la adequadamente dentro desse novo contexto? No momento, essas nos parecem as alternativas mais sensatas a serem consideradas pelos educadores.

Resultados de pesquisas sobre leitura divulgadas em setembro de 2005 mostram que o Brasil ainda possui problemas fundamentais de compreensão de texto (apenas - da população brasileira consegue ler com proficiência), o que revela um problema mais grave ainda: o nível rudimentar de alfabetização no qual - da nação se encontram hoje. Dados como esses deveriam servir de argumento para convencer os responsáveis pelas políticas públicas de educação a implantarem urgentemente programas de capacitação docente focados no aproveitamento do potencial pedagógico das tecnologias digitais hoje bastante conhecido, comprovado e à espera de utilização.

Jáestá mais do que na hora do governo contra-atacar o problema central da ignorância brasileira com aplicações de overdoses financeiras na formação e capacitação tecnológica dos docentes, bem como na aquisição de máquinas computacionais avançadas a serem disponibilizadas em nossos espaços escolares. O discurso de que é preciso primeiro tornar todo o "Brasil Alfabetizado" para só depois poder investir em aperfeiçoamento dos professores e em laboratórios de informática tem, ano após ano e governo após governo, inibido a tomada de atitudes mais arrojadas que poderiam enfrentar o atraso intelectual e tecnológico que impede o desenvolvimento econômico e a melhoria da qualidade de vida da maioria do povo brasileiro.

Os novos tempos exigem por parte do Estado uma substancial injeção de recursos no sistema nacional de educação para adequar a escola e o professor ao seu novo perfil imposto pelas inovações tecnológicas: mais pesquisador e menos repetidor de informação, mais articulador de saber e menos provedor único de conhecimento, mais gestor de aprendizagens e menos instrutor de regras. Na nova ordem mundial econômica e tecnológica, o docente deve atuar mais como um consultor que sugere do que como um chefe que manda. Isso porque o acesso da nova geração à rede mundial de computadores tem lhe permitido mais liberdade de expressão e mais interatividade. Nessa perspectiva, há pesquisas com adolescentes da América, Europa e Ásia revelando que quanto mais eles usam as parafernálias digitais mais ganham autonomia de aprendizagem, aguçam a curiosidade e o faro investigativo, dilatam sua sensibilidade emocional e intelectual, ampliam sua preocupação com os acontecimentos globais, além de aumentar a consciência de seu papel e de sua responsabilidade social, quando comparados à geração de seus pais.

Portanto, governos e professores não podem mais ficar como "Carolina" à janela esperando a banda tecnológica passar, pois quando perceberem talvez ela já tenha dobrado a esquina da história e a história da nação brasileira continuará acumulando déficits intelectuais, tecnológicos e com baixa qualidade de vida.

Novo pacto político nacional

Inocêncio Oliveira
DEPUTADO FEDERAL POR PERNAMBUCO (PL)

Para um novo quatriênio (2007/2011) propõe-se um novo pacto das forças políticas que leve o País a um crescimento sustentável do PIB em torno de, pelo menos, 6% a.a., pois "o desenvolvimento é, necessariamente, um processo de conserto nacional" como assinala o documento do CDES - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - divulgado em agosto último. Essa meta econômica se concretizará se continuar a haver manutenção do controle da inflação; juros progressivamente menores; superávit na balança comercial; diminuição da dívida pública; investimentos em infra-estrutura; redistribuição de renda com divisão do poder político; etc.

O poder político nas sociedades modernas, apóia-se em estruturas administrativas ágeis, profissionais, que devem operar com eficiência e eficácia, recrutando-se os melhores elementos pelo método do concurso público ou da prova de títulos, porque há talentos acadêmicos - isto é, formados pelos campos universitários - e inacadêmicos, com experiências e vivências de que a administração pública não pode prescindir. É possível atingir um PIB real "per capita" de R$ 25 mil em 2015? Sim, desde que se unam as forças políticas mais responsáveis para que, ao lado dos investimentos econômicos se promovam, dentro do Orçamento Geral da União, os ajustamentos necessários à promoção do social, incluindo programas e projetos objetivos de financiamento à construção de moradias de interesse social (baixos juros + longo prazo de amortização), saneamento básico, serviços comunitários (quadras poliesportivas, centros de saúde, teatro e cinema, núcleos de artes cênicas e plásticas), transporte público, abastecimento alimentar.

É preciso porém, que os 27 Estados dêem a sua parcela de contribuição renunciando à guerra fiscal e eliminando impostos e taxas e baixando, na prática, o chamado "custo Brasil". Mais ainda: é necessário redirecionar os investimentos dos Estados para financiar programas e projetos sociais de cunho participativo, deixando queas comunidades decidam o que é melhor para elas próprias: enfim, estender, na prática, o orçamento participativo.

A expectativa do CDES é de que o BNDES possa aplicar, nos próximos 10 anos, recursos no valor de R$ 650 bilhões no financiamento de projetos industriais e de infra-estrutura no Norte e Nordeste, contribuindo para a formação daquelas "economias externas" indispensáveis à eficiência dos investimentos privados, principalmente em regiões de baixos níveis de poupança, como o Norte e Nordeste do Brasil. Outros temas poderão ser aqui assinalados nesse programa que o Presidente Lula terá condições de consolidar: a diversificação da matriz energética brasileira, com maior ênfase aos bio-combustíveis (etanol, biodiesel, H-bio); universalização do saneamento básico; apoio continuado às micro, pequenas e médias empresas; reestruturação agrária, com a distinção entre terra de trabalho e terra de negócio.

E, finalmente, teremos de vencer a batalha da segurança pública, com apoio às iniciativas de reestruturação e aperfeiçoamento das Polícias Federal e Estaduais. Este é o escopo básico de um programa coerente de governo, a partir de 2007, que terá de contar, para o seu sucesso, com o apoio dos Poderes Legislativo e Judiciário.

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite
JORNALISTA

Como a primeira mulher, o primeiro chope é de mera ambição ou a descoberta da sede. Os que a ele e a ela se sucedem é a consagração das madrugadas. Freud não seria tão simples nem moleque: a primeira mulher é a presença da mãe e o dengo da irmã mais velha. As seguintes, o inocente dormir na cama da prima, a descoberta da vizinha, a intimidade com a colega de escola, o leve roçar de pernas e das partes na primeira dança, o vento levantando a saia da menina, o lance de calcinha da moça se agachando. Ou de pernas se cruzando na franqueza geral da minissaia.

Isso eu aprendi logo cedo, camaradas: se o seu olhar de inteiro couber lá dentro do olho da menina, não a espie de novo. Nem de frente. Os olhos fecham contratos secretíssimos. É de curvas o olhar dos que se querem, camaradas. Está, esse querer-se, nas mãos agarrando o copo, No se mudar de posição na mesa, no ouvir sem dizer, no dizer pra não se ouvir. No pé por debaixo da cadeira - há conversa mais franca do que a dos dedos,camaradas? No absoluto silêncio, na algazarra. E até no "tudo bem?", no alisar o cangote, no nhanhã do beijim.

O primeiro ato de amor, o amoreco, é um amorar-se em si mesmo, o sexo ardente numa mão, na outra a mulher que não se tem, embora cobiçada. Tenho ser esse ato de amor o delírio do nada, pois as mãos que digitam o próprio corpo, com toda a certeza de mulher sabem somente de retratos. Eis aí a ortodoxia de um desastre, camaradas.Mania ou amor demais essa maneira minha de mulheres cortejar? Logo cedo, minha mãe desconfiou de mim. No Natal, me deu um brinquedo de pilha, um par de luvas de box, um patim, um saco de bolas de gude, futebol de mesa, um jogo de xadrez, essas chatices. Se esqueceu que minha prima gostava mesmo de um ganzá.

De tarde, lá estávamos, eu e Dora, no quintal. Minha mãe ralhou comigo, Deus a tenha, camaradas. Meu pai se fez de desentidido, e foi embora. Não me olhou de frente, por isso entendi o seu olhar... Empedernido de nascença, hoje estou aqui, meio aluado. Cidadão quarto minguante. Caindo pelas tabelas, sou um homem quase nada, um quase morto, um fulano qualquer. Mas ainda arranjo companheiras, camaradas. Ontem, boquinha da noite, sentamos eu e a Gordinha no primeiro bar. Sorrimos, eu e ela, um sorriso único. Feito o primeiro chope, que é a glória da sede, o primeiro sorriso da mulher sinaliza o que pode ser a madrugada. A Gordinha tinha eriçado o bico dos peitos, como somente os têm as mulheres noturnas. Baton nenhum, lilaz que fosse. Nenhuma sombra nos olhos. Nem enfeites. Ai, eu juntei as gambiarrras coloridas do puteiro, fiz um trancelim de lâmpadas, e coloquei no busto da Gordinha. Olhando o mar do porto, ela me perguntou, então:

- Cansado?...

- Não, um pouco doente. Uma dor aqui, de lado.

- Fadiga, ela insistiu.

A dor é um recado de saúde do orgamismo à outra parte do organismo que adoece, inclusive a alma. Aí, a Gordinha se arretou, descansou os dois peitos na bolacha de chope e me falou baixinho:

- Curiosa a fadiga de que muitas vezes você se reclama.

Osprazeres originais da espécie humana, no entanto, muitas vezes dependem da fadiga, ou a ela antecedem para depois partilhar, com ela, um gostoso relaxamento. Cansados, adormecemos depois de uma dor, de um grande esforço, de um grande prazer...

Qualquer atividade depende da fadiga para restabelecer seus limites. E é por causa dela que o Livro dos Recordes atravessa os tempos, surpreendendo-nos a cada quebra de marcas. Embora seja o sono seu maior favorecido, é ela também que favorece os ciclos da natureza, as interrupções das brigas. A noite é a fadiga dos dias que, no entanto, se repetem. A velhice a fadiga da juventude que, no entanto, permanece dentro de nós. O silêncio é a fadiga do discurso que, no entanto, recomeça em todos os temas. Do mesmo modo, os filhos são a fadiga dos ciclos da vida, que se repete depois que descansa nos intervalos das gestações. Do mesmo modo que a amizade é o cansaço do amor, que, arrebatador, também cansa de fervilhar. Do mesmo modo que o frio é o cansaço do calor que, de tanto fatigar, também precisa descansar.

Dos direitos naturais da espécie, poucos permanecem tão accessiveis quanto a fadiga que, no entanto, não perde seus encantos jamais. A fadiga que sucede o sucesso, que nos faz descansar, que nos faz desistir ou começar a lutar, é um reptil de duas cabeças que com uma morde e com a outra sopra.

Fadiga em tudo é a morte que, no entanto, apenas cancela o próximo jantar. Porque depois vem a vida, e com ela a história que então se repete. Curiosa a fadiga das mãos que escrevem tão devagar os pensamentos que vão mais rápidos que elas. Curiosa e demente, pois não liga se eu reclamar."Quando ela acabou de falar, fatigaram-se até as ondas do Atlântico. Ela pegou o seu fusquinha e foi embora. Eu beijei um amuleto que trago no peito desde a infância. Cheguei no pé da escada do puteiro e gritei:

- Dona Lalu, onde você escondeu a minha infância..."

.................................................................................................
Fonte: http://www.pernambuco.com/diario/2006/10/15/opiniao.asp

4 de outubro de 2006

Edublog, o quê?

Diário de Pernambuco - Informática - Edição de quarta-feira, 4 de outubro de 2006

EDUCAÇÃO // Páginas de professores e alunos voltadas para o conhecimento prometem uma revolução no ensino, atraindo pela autoria na web e reaquecendo o interesse pela sala de aula

Lúcia Guimarães
DA EQUIPE DO DIARIO

Carlos da Silva, 12 anos, é um daqueles alunos da rede pública que não costuma prestar atenção na aula, tampouco dedicar-se aos estudos em casa. É daqueles que falta a aula pelo menos uma vez na semana, não gosta de ler e ainda não pensa numa profissão (ainda). Falta de estímulo ou dificuldade de aprendizagem? Que nada. Como disse durante a sua curta passagem pelo Recife Francisco Pacheco, da Escola de Pontes, em Porto/Portugal - referência mundial em ensino -, apesar do termo estar na moda, dificuldade de aprendizagem não existe. O que existe, segundo o mestre, é dificuldade de "ensinagem". Talvez por isso o blog venha despertando o protagonismo de milhares de alunos mundo afora. E no estado isso não é diferente.

Corrente mais nova quando se fala em educação, esses diários virtuais agora estão servindo para transformar relações na educação, por isso vêm sendo batizados de edublogs. Estas páginas sem caráter "oficial" de qualquer empresa ou instituição de ensino começam a provocar uma verdadeira revoluçãonas salas de aula das redes privada e pública. Ou melhor, nas casas de alunos e laboratórios, pois ela é usada normalmente fora do horário das aulas formais. E acabam por contagiar a todos, afinal, quem não gosta de se sentir-se autor?

Talvez esteja aí o segredo deste "boom": o protagonismo, coisa que no ensino mais tradicional muitas vezes não acontece, pois o foco é o professor, ele é o centro e detentor do conhecimento, quando as linhas mais abertas da educação já afirmam que esse status sumiu do mapa, pois ele hoje deve ser o facilitador de processos de conhecimento, o indutor, e não o centro. "O edublog é uma nova percepção lingüística, que pode permitir ao professor e aluno o papel de articulador do conhecimento. Se sabem que vão ser vistos, passam a ter mais cuidado com a língua e escrita e com as informações, apuram mais, lêem mais", sentencia o doutor em lingüística Antônio Carlos Xavier, coordenador do núcleo de estudos de hipertexto e tecnologia educacional da Universidade Federal de Pernambuco.

Mestra em lingüística e professora de Católica, Neide Mendonça é outra que aposta nesta nova ferramenta como um grande trunfo para o resgate do protagonismo na relação professor-aluno. Para ela, é até uma questão psicológica. "Pela autoria, a pessoa acaba se preocupando mais com a escrita, com a norma culta e a comunicação fica mais atrativa", diz ela.

Escolas - Um dos exemplos no Recife quando o assunto é a nova corrente da comunicação entre professor e aluno é o Colégio Equipe, na Torre. Samea Franceschini é coordenadora de lá e diz que isso é bastante novo, há poucos meses estreou na escola. Mas os resultados já impressionam e começam a contagiar a todos: professores, alunos e famílias. "Muitos alunos dispersos e sem prazer pelo estudo começam a mostrar uma outra face", diz a educadora, que tem sua própria página e está bastante empolgada com o feedback. "O fato de ser da minha responsabilidade, exige que eu garimpe mais, leia mais, escreva melhor, esteja sempre atualizada", acrescenta.

Lá mesmo no Colégio Equipe o Informática pôde comprovar que as correntes mais antenadas da educação têm razão. Alguns professores mostram-se empolgados com o edublog, é como se estivessem resgatando a auto-estima perdida entre tantos educadores mergulhados numa rotina muitas vezes que não permite inovações. Pela simples falta de tempo mesmo (e um pouco de organização talvez). Igor Sasha, professor de geografia, é um deles. Aos 25 anos, acaba de descobrir que pode continuar sua aula com o aluno mesmo sem estar na sala, e o melhor, de forma leve, atual e nem por isso menos importante. "Vou além do conteúdo de geografia, pego coisas correlatas, da atualidade, e tenho me sentido super importante quando percebo que aquele aluno mais inquieto está mostrando-se interessado, por causa da nova ferramenta, e leva o debate para a sala de aula", ratifica.

Outro que adotou foi Rodrigo Acácio, de biologia. Mas alerta: "pensei que era mais simples, mas percebi que para ter conteúdo atrativo tenho que ter mais trabalho, mas é muito gratificante", diz. Já para João Reginaldo, professor de português do Equipe e da rede pública, a página tem um gostinho especial, pois ele acredita que seu edublog está cumprindo um papel importante. "Incentivo a leitura, abrindo discussões sobre livros e envolvendo toda a família", conta. Tudo começa na sala de aula e culmina lá, acaba um impulsionando o outro.

.................................................................................................
Fonte: http://www.pernambuco.com/diario/2006/10/04/info1_0.asp

Prazer (re)descoberto pela gostosa autoria

Diário de Pernambuco - Informática - Edição de quarta-feira, 4 de outubro de 2006


MATÉRIA DE CAPA // Edublogs mostram seu potencial pedagógico, incentivando alunos e professores a se esmerarem na busca pelo conhecimento e a exercerem bem a escrita

Vinicius de Moraes, 12 anos, e João Pedro, 11 anos, são amigos de turma. Cursam a 6ªSérie. Percebendo que seus colegas da mesma faixa etária passam muito tempo navegando na internet, e em páginas nem sempre tão legais assim, eles resolveram aproveitar o interesse dos colegas para serem "autores", autores de um blog, mais precisamente um edublog, pois a página versa sobre assuntos de conhecimento em geral. O grande destaque são matérias estudadas em sala de aula, recheadas de novos conteúdos. Lá também dão dicas de músicas legais, letras, links para outros sites.

Sem eles perceberem, estão ratificando o que dizem as novas correntes de didáticas educacionais e de lingüística. Estão reforçando o potencial pedagógico dos edublogs, mostrando que sabem inclusive diferenciar este espaço dos bate-papos instantâneos que exigem uma escrita abreviada. "Ser autor de um edublog é bem mais difícil do que pensávamos, mas muito legal é a resposta. Todo mundo está curtindo", diz Vinicius. João acrescenta que sem perceber eles estão lendo mais para "levar" conhecimento aos colegas. Os especialistas asseguram que esta nova ferramenta estimulam o debate e desenvolvem o senso crítico.

E quem pensa que os edublogs ainda estão longe da rede pública de ensino está enganado. Em Pernambuco, são várias as instituições que já se mexem neste sentido, incentivando os alunos. Vale lembrar que as escolas, normalmente, já têm uma ferramenta para desenvolver um diário desses (e na web tem várias opções gratuitas). Um exemplo bem legal vem de longe da capital. Mara Medeiros tem 18 anos e cursa magistério (4º normal médio) no Colégio Normal de Afogados da Ingazeira.Sua página foi criada a partir de um trabalho de sala de aula. Mas, na escola, constam vários projetos que nasceram na sala de aula e que não se esgotaram. Ganham novas discussões, comentários de todo o país. Mara diz que ele não está mais legal porque não tem um PC em casa.

Magistério - Quem coordena toda a parte de tecnologia no curso de Mara é a professora e mestranda da UFRPE Cláudia Almeida. Ela mesma estende a discussão na web, com um edublog seu sobre TI no magistério. Outro exemplo é a educadora Edjane Gomes, que também trabalha com blogs. Ela ajudou a construir o blog da aluna Mara, sobre lixo.

Para o doutor em lingüística Antônio Xavier, o edublog é perfeito pois alia três coisas fundamentais: o autor passa a articular e organizar o conhecimento; o espaço é burilado em função de uma competitividade positiva; e o autor desperta para a norma culta da língua, pois quer levar conhecimento da forma mais correta.O que nem sempre dá tempo na dura rotina de um mestre ou de um aluno que não teve o prazer despertado pelo conhecimento desde o início. (L.G.)

Educação na rede


.................................................................................................
Fonte: http://www.pernambuco.com/diario/2006/10/04/info1_1.asp